Florina

(Conto Maravilhoso)

✦ Autoria: Emília Freitas · Preparação: may cavalcante.

Havia uma crença popular que ninguém devia entrar na caverna da montanha, chamavam-na a caverna maldita; todos os pastores a avistavam de longe, mas não ousavam aproximar-se dela.

Entretando Florina, a formosa pastora que há três anos conduzia as vacas à pastagem, sentia um violento desejo de saber o que havia naquela caverna, e de dia a dia ela experimentava mais curiosidade. Mal completou seus dezesseis anos, disse ela consigo: – sou moça, não devo mais ter medo.

Um dia, pois, ela deixou o rebanho sob a guarda de seu jovem irmão, dizendo que iria colher morangas; mas ela concebera outro pensamento, e internada no bosque, dirigiu-se para a terrível caverna.

Penetrou na caverna sem hesitar, tanto sua curiosidade era viva, mas, apenas deu alguns passos, veio-lhe o desejo de recuar.

Infelizmente, não era cousa possível; a caverna fechava-se à medida que ela avançava, e o que era mais maravilhoso, ela enxergava suficientemente para caminhar. Por toda a parte um clarão, cujos raios nenhum foco projetava, e Florina lobrigava ao longe outra abertura na montanha, que parecia convidá-la a animar-se e prosseguir seu caminho.

Ela acelerou o passo, porque temia que, a caverna fechando-se por diante, fosse sepultada viva na montanha.

Nada foi: Florina, depois de ter caminhado longo tempo, muito tempo, sem cessar de ver muito longe de si a abertura, que ela acreditava nunca atingir, chegou ao fim, e ficou bem surpreendida de descobrir um país maravilhoso, e mil cousas das quais não tinha ideia alguma.

O céu era róseo, a erva e as folhas azuis, os pássaros tinham quatro asas, as menores borboletas eram grandes como folhas de sicômoro, a água jorrava aqui e acolá em molhos de esguichos cintilantes, que exalavam os mais suaves perfumes; os gamos, de pelo branco, de cornos dourados, de olhos azuis, que vinham beber a essas fontes embalsamadas, dançavam ao redor da donzela, e falavam-lhe um idioma desconhecido, mas tão doce e tão sonoro, que ela sentia indizível prazer em ouvi-lo, tão expressivo que, em poucos momentos, ela adivinhava quase; é verdade que essas lindas criaturas ocupavam-se sobretudo de sua beleza.

Florina marchava de surpresa em surpresa; todo esse país encantado parecia-lhe estar em festa. Ela ouviu por trás de muitas árvores, inteiramente novas para si, concerto de vozes humanas; para esse lado dirigiu-se ela.

Na quebrada de uma avenida juncada de ouro, ela avistou, através de magníficas sombras, um palácio de prodigiosa beleza. À medida que ela se aproximava, ouvia maior ruído; eram cantos e risos, cuja expressão singular infundia-lhe mais terror que alegria.

No entanto ela não via aparecer pessoa alguma.

Ela não ousou apresentar-se à grande entrada, e fazendo um desvio, acercou-se de uma janela baixa, d’onde saia um odor da mais apetitosa cozinha do mundo.

Ela bate timidamente à porta. Um grande cozinheiro apareceu, que lhe fala com voz áspera:

– Que procuras aqui?

– Procuro meu caminho, senhor, e rogo-vos dizer-me por onde poderei voltar a minha casa.

– Ah! sois a bela, que atravessastes a montanha! Sede bem-vinda, Florina! Não esperávamos senão a vós!

Dizendo essas palavras com riso sardônico, o grande cozinheiro afiava sua faca n’um amolador de aço, e arremessava sobre a donzela olhares fulgentes.

– Entrai – disse-lhe ele. – Mademoiselle, entre. Vosso caminho é por aqui.

Florina, depois de ter percorrido um longo corredor, achou-se no meio de uma vasta cozinha, onde vinte marmitões e outros tantos criados estavam ocupados nos aprestos de um suntuoso festim.

Por toda parte coziam-se as viandas, trabalhavam-se as aves. Ao mesmo tempo, trinta marmitões ocupados; mas a pastora surpreendeu-se vendo a maior parte das marmitas aberta e vazia junto ao fogão, e mau grado, seu espanto, não pôde conter-se, e disse a meia voz:

– Senhor cozinheiro, por que esta marmita não está cheia como as outras?

– Porque ela esperava a sua caça, Florina, e esta acaba de chegar neste momento. Éreis vós a quem nós esperávamos para pôr dentro, e quando estiverdes pronta, começará o festim.

Florina desatou a chorar, e pediu ao cozinheiro que lhe poupasse a vida.

– Só há um meio de salvação para vós – retorquiu o terrível chefe – eis aqui uma chave de ouro; procurai em todo o palácio a porta que ela poder abrir. Se achardes, nós não vos cozeremos, e escolheremos outra pessoa para o festim de Sua Majestade.

– Em nome do rei, senhor cozinheiro, não ponhais pessoa alguma em meu lugar neste momento! Não há aqui viandas em abundância para a refeição de Sua Majestade!

– Florina, pensai em vós, só, e não pretendais introduzir entre nós novos costumes. Quanto a mim, só tenho a dizer-vos: vede a fechadura que possa convir à esta chave, e estais salva. Depois podereis implorar uma graça, uma só, à nossa sagrada Majestade.

Imediatamente Florinda pôs mãos à obra: ela experimentou a chave em mais de trezentas portas.

Para esse trabalho, ela só tinha o resto do dia; o sol baixava, e ainda ela não tinha encontrado fechadura para a chave de ouro. A pobre moça tremia, como varas verdes; na sua precipitação, ela não tinha a precisa serenidade para fazer convenientemente suas experiências. O chefe e quatro ajudantes armados de suas grandes facas, seguiam-na passo a passo, e alternadamente diziam à tímida donzela:

– Apressai-vos, Florina. O sol baixa – o sol baixa – apressai-vos, Florina!

Ela percorreu os grandes e pequenos aposentos; subira ao madeiramento e descera, passava de corredor a corredor; não deixou uma só fechadura sem a experimentar, mas a chave era sempre grande ou pequena, ou o palhetão mal torneado e feitio de outro jeito que não ajustava. Por fim o cozinheiro disse à pastora:

– Florina, eis o derradeiro momento, o sol vai atingir a montanha.

A pastora achava-se então de frente a um grande espelho pendurado à parede, e, como para ali lançasse os olhos, viu sua mãe e seu pai sentados em uma cabana. Eles choravam, e sem dúvida pranteavam sua filha que perderam, sem, portanto, pensar que ela achava-se em posição tão cruel.

A esta vista, a desgraçada fora de si gritou:

– Meu pobres pais, ainda posso tornar a vê-los antes de morrer!

Falando assim, ela precipitou-se tão vivamente para seu pai e sua mãe para abraçá-los, que a chave de ouro saltando, bateu no espelho e fê-lo em mil pedaços. Ora, por trás do espelho achava-se uma porta oculta; esta porta tinha uma fechadura, esta fechadura convinha perfeitamente à chave de ouro. Logo que a pobrezinha a experimentou, a porta abriu-se.

– Não esperávamos senão a vós, bela Florina – disse-lhe o jovem e lindo monarca, apresentando-lhe, em magnífica sala, sua corte, a mais brilhante do mundo inteiro.

A pastora, olhando a si mesma, viu-se transformada. Entretanto em si não havia mudança senão no vestuário que resplandecia de diamantes e rubis. Florina nascera tão bela que não necessitava de outra cousa para transformá-la em completa princesa.

Entretando, no meio do esplendor soberano, o jovem monarca estava pensativo e melancólico; parecia exposto a uma secreta inquietação, e, conduzindo a estrangeira à mesa do festim, disse-lhe com voz comovida:

– Formosa Florina, tendes uma graça a pedir-me. Qual é?

– Ah, senhor! – respondeu ela – Não hesitarei em pedir-vos que me restituais a meus pais, mas, vossa felicidade e vossa glória tocam-me mais do que tudo, eis porque peço-vos a graça de toda a infeliz que como eu, possa cair nas mãos do vosso cozinheiro…

Apenas pronunciara estas palavras, que uma música triunfal ouviu-se na sala do festim – todos os semblantes expandiram-se – o Príncipe soberano parecia radiante e a mais viva alegria substituira em seu rosto os sonhos de pesar.

– Oh, minha libertadora! – exclamou ele beijando a mão de Florina – Sede bendita pela súplica que me dirigiste! É a mim que fazeis a graça que implorais para os outros! Feliz pedido que esperava ter a quinhentos anos, e livra-me de um espantoso encantamento! Sois vós a primeira, Florina, que tendo a pedir-me um favor, um só, esquecestes-vos por outrem. De ora avante, poderei passar uma vida inocente! Minha mesa real não será mais conspurcada por detestáveis manjares, ao quais foi-me permitido, é verdade, nunca tocar, mas cujo único aspecto horrisava-me. Em reconhecimento de tão grande benefício, quero, formosa Florina, fazer por vós alguma cousa de mais.

– Ah, senhor! Peço-vos que me restituais a meu pai e à minha mãe!

– Não posso!

– Então chamai-os para junto de sua filha?

– Também não é possível!

– Ah! Então o que é que podereis fazer por mim?

– Enviarei o pássaro vermelho, meu fiel mensageiro, dizer a vossos pais que sois minha esposa, e que não há sobre a terra uma rainha mais amada e mais amável do que vós.

.     .     .     .     .

Florina reinou – foi esposa feliz, mãe feliz, mas seus olhos arrasados em lágrima voltavam-se muitas vezes para a montanha, por trás da qual ficara metade de sua felicidade.

Não há, mesmo no país das fadas, felicidade completa neste mundo.


Anotações à Margem

Por may cavalcante

Emília Freitas (1855-1908) foi uma escritora cearense de rosto e obras desconhecidos, mesmo tendo sido a pioneira do seu gênero literário no Brasil. Só para imaginar o tamanho do apagamento, A Rainha do Ignoto, reconhecidamente a primeira narrativa longa brasileira de literatura fantástica e ficção científica, não consta no site de domínio público do governo federal ao lado de “Machados e Alencares”. No recém-criado MEC Livros, está disponível uma obra sobre A Rainha do Ignoto, mas não o texto original de Emília Freitas (em abril de 2026). Vá entender!

O conto Florina foi publicado no Jornal Libertador de Fortaleza (CE), em 1883, e “assinado” apenas com três pontos ao final. Sua autoria foi atribuída academicamente com base na proximidade de estilo e temática com A Rainha do Ignoto e pelo fato de Emília ter sido uma colaboradora usual do jornal em que foi publicado. Florina é considerada, na verdade, a “primeira versão” d’A Rainha do Ignoto (1899).

Na preparação do texto, interferi o mínimo possível, alterando grafias de acordo com a nova ortografia, e algumas pouquíssimas pontuações. Doeu não cortar vários “ela” que se repetiam irritantemente, mas não era imprescindível para o entendimento do texto.

Dois outros pontos que poderiam, a priori, parecer erros, mas que resolvi deixar foram:

  1. O cozinheiro usa tanto “tu” como “vós” para se referir à Florina, como na passagem “– Entrai – disse-lhe ele. – Mademoiselle, entre.” Acho que foi intencional. O  recurso é consistente nesse personagem e talvez tenha sido uma forma que a autora encontrou para mostrar um menor nível educacional dele.
  2. Há mistura de tempos verbais em algumas passagens. Até ensaiei alterar a pontuação em uma delas, mas haveria leve mudança de sentido, então o leitor que se vire nesse trecho. Para mim ainda ficou meio confuso, mas dá para entender com algum esforço.

Quando comecei a ler Florina, gostei porque acho divertido contos de fadas antigos – por mais bobinhos que sejam – e me envolvi na jornada da heroína. Terminei cativada pela sagacidade da autora. Sem meias palavras: o príncipe é um filho da p***! A moça o liberta de uma maldição abominável, e como pagamento, ele a aprisiona, opa, digo, faz dela sua esposa sem consultá-la, quando o que ela realmente queria era ficar com os seus pais. Ah, mas a autora diz que Florina foi feliz! Sim, com olhos arrasados de lágrimas. Se alguém, mesmo naquele tempo, acreditou que pudesse existir esse tipo de felicidade pela metade, é porque quer muito, do fundo do coração, acreditar em contos de fada.

Mas essa é só minha opinião. Por favor, sinta-se à vontade para ter a sua. Agora vou partir para A Rainha do Ignoto que encontrei a digitalização da primeira edição e estou empolgadíssima para explorá-la.

O conto Florina está em Domínio Público e pode ser encontrado no site da Fundação Biblioteca Nacional, nas edições 171 e 172 do jornal Libertador, do ano de 1883.


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