Categoria: Conto

  • A história de uma hora

    ✦ Autoria: Kate Chopin · Tradução: may cavalcante.

    Sabendo-se que a Sa. Mallard sofria de um mal do coração, grande cuidado se teve

    ao anunciar-lhe, o mais gentilmente possível, a notícia sobre a morte de seu marido.

    Foi sua irmã Josephine quem lhe disse, em frases quebradas; pistas veladas que revelavam meio que escondendo. O amigo de seu marido, Richard, estava lá também, perto dela. Foi ele quem tinha ido à redação do periódico quando a informação do desastre na estrada de ferro foi recebida, com o nome de Brently Mallard sendo o primeiro na lista de “mortos”. Ele apenas tinha esperado o tempo para se assegurar da veracidade por um segundo telegrama e apressou-se em impedir que qualquer amigo menos cuidadoso, menos terno de levar a triste mensagem.

    Ela não ouviu a história do mesmo jeito que várias mulheres a teriam ouvido, com uma paralisante inabilidade de aceitar seu significado. Chorou imediatamente, com um abandono selvagem, repentino, nos braços da irmã. Quando a tempestade de tristeza se gastou por si mesma, ela saiu para o seu quarto sozinha. Não consentiu que ninguém a seguisse.

    Havia lá, defronte à janela aberta, uma grande poltrona confortável. Nela se afundou, abatida por uma exaustão física que assombrava seu corpo e parecia alcançar sua alma.

    Podia ver na praça diante de sua casa os topos das árvores que tremulavam com a nova vida primaveril. O delicioso álito da chuva estava no ar. Na rua abaixo, um camelô anunciava seus produtos. As notas de uma canção distante que alguém estava cantando alcançavam-na fracamente, e incontáveis pardais gorjeavam nos beirais.

    Havia retalhos de azul no céu mostrando-se aqui e acolá através das nuvens que haviam se encontrado e se amontoado uma em cima da outra a oeste, olhando para sua janela.

    Sentou-se com a cabeça jogada para trás na almofada da cadeira, quase sem se mexer, exceto quando um soluço vinha a sua garganta e a estremecia, como uma criança que chorou até dormir continua soluçando nos seus sonhos.

    Ela era jovem, com um rosto claro, calmo, cujas linhas denunciavam repressão e mesmo uma certa força. Mas naquele momento, havia um olhar morto em seus olhos, com a vista fixada longe lá longe, em um daqueles retalhos azuis no céu. Não era um olhar de reflexão, mas indicava uma suspensão de pensamento racional.

    Algo estava vindo até ela, e ela estava esperando, temerariamente. O que era? Não saiba; era muito sutil e esquivo para nominar. Mas ela o sentia, esgueirando-se do céu, alcançando-a através dos sons, dos aromas, da cor que enchiam o ar.

    Agora seu peito subia e descia tumultuosamente. Estava começando a reconhecer essa coisa que estava se aproximando para possuí-la, e estava lutando para rechaçá-la com sua vontade – por mais sem forças que suas duas esguias mãos brancas estivessem.

    Quando abandonou a si mesma, uma pequena palavra sussurrada escapou de seus lábios levemente separados. Ela a murmurava repetidamente: “livre, livre, livre!” O olhar vazio e a expressão de terror que o seguiu se foram de seus olhos. Eles ficaram agudos e brilhantes. Seus pulsos aceleraram, e seu sangue aqueceu e relaxou cada centímetro do seu corpo.

    Não parou para questionar se foi ou não um júbilo monstruoso o que tomou conta dela. Uma percepção clara e exaltada lhe permitiu dispensar a sugestão como trivial.

    Sabia que choraria novamente quando visse as ternas mãos gentis cruzadas na morte. O rosto que nunca olhou senão com amor para ela, imóvel e cinza e morto. Mas ela viu além daquele momento amargo um longo desfilar dos anos vindouros que pertenceriam somente a ela. E ela abriu e estendeu seus braços para eles em boas-vindas.

    Não teria que viver para ninguém nos anos que viriam; viveria para si mesma. Não haveria nenhuma vontade poderosa dobrando a sua naquela persistência cega com a qual homens e mulheres acreditam que têm o direito de impor sua vontade pessoal sobre outra criatura semelhante. Uma boa intenção ou uma intenção cruel não fazia o ato parecer menos criminoso enquanto ela o considerava naquele breve momento de iluminação.

    E ainda ela o tinha amado – às vezes. Frequentemente, não. O que importava! O que poderia o amor, o mistério irresoluto, valer em face dessa posse da própria vontade a qual ela reconhecia como o mais forte impulso do seu ser!

    “Livre! De corpo e alma!” Continuou sussurrando.

    Josephine estava ajoelhada em frente à porta fechada com seus lábios colados no buraco da fechadura, implorando para entrar. “Louise, abra a porta! Eu imploro; abra a porta – tu acabarás adoecendo. Que estás fazendo, Louise? Pelas bênçãos dos céus, abra a porta.”

    “Vá embora. Não adoecerei.” Não, ela estava bebendo o próprio elixir da vida através daquela janela aberta.

    Seu devaneio estava correndo solto naqueles dias à sua frente. Dias de primavera, e dias de verão, e todos os tipos de dias que seriam somente dela. Ela murmurou uma rápida oração para que sua vida fosse longa. Apenas ontem, tinha se arrepiado ao pensar que sua vida poderia ser longa.

    Ela se levantou por fim e abriu a porta para as importunações da irmã. Havia um triunfo febril em seus olhos, e ela se portava inconscientemente como uma deusa da Vitória. Apertava a cintura da irmã e, juntas, elas desciam as escadas. Richards estava em pé, esperando por elas ao pé da escada.

    Alguém estava abrindo a porta da frente com uma chave. Foi Brently Mallard que entrou, um pouco desalinhado pela viagem, serenamente carregando sua valise e guarda-chuva. Ele havia estado longe da cena do acidente e nem sequer sabia que havia acontecido um. Ele parou surpreendido pelo grito de Josephine; pelo rápido movimento de Richards para ocultá-lo da vista de sua esposa.

    Mas Richards tinha sido muito lento.

    Quando os médicos vieram, disseram que ela havia padecido da enfermidade do coração – do regozijo que mata.

    Kate Chopin escreveu “The Story of an Hour” em 19 de abril de 1894. Ele foi publicado inicialmente pela Vogue (a mesma revista é vendida hoje) no dia 6 dee dezembro de 1894, sob o título “The Dream of an Hour” (“O sonho de uma hora”). Ele foi reimpresso em St. Louis Life em 5 de janeiro de 1895.

    Você pode encontrar informação ampla e precisa sobre as histórias e novelas de Kate Chopin, bem como sobre a vida dela no website da Kate Chopin International Society (Sociedade Internacional da Kate Chopin)


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  • Traições

    ✦ Autoria: may cavalcante · Revisão: Profa. Maiara Alvarez, Catarina de Fátima Machado, Milena Atique Tacla.

    Maurício seguia a menos de 30 metros de distância do casal. Eles não perceberam que estavam sendo seguidos, pois estavam completamente absorvidos em seus mundos individuais.

    À sua frente estavam o grande amor de sua vida e o grande obstáculo para que esse amor se realizasse. Lúcia também o amava. Suas cartas e as ardentes tardes de desejo mostravam isso claramente. Ela odiava o marido com fervor, fugiria com Maurício se tivesse a chance, havia-lhe dito pessoalmente durante o encontro furtivo no almoço. A maior prova disso era o casal não trocar uma palavra com o outro depois de uma noite no teatro.

    Um quarteirão, dois quarteirões, assistiu-os a caminhar em silêncio. Amanhã, a essa hora, ele estaria em um navio destinado a Deus sabe onde. Passaria seis meses no mar. Enquanto isso, Porfírio teria Lúcia só para si. Inclusive para maltratá-la, como uma vez presenciara.

    Nesse dia, estavam aguardando a mãe de Lúcia chegar à casa para o jantar, mas a senhora, como de costume, estava quase uma hora atrasada. Porfírio irritou-se.

    — Como sempre, sua mãe não consegue chegar na hora uma vez sequer – reclamou.

    — Qual o problema? Não é como se você estivesse morrendo de fome, acabou de comer todos os pãezinhos de alho, não deixou nem para a visita. — Lúcia olhou para Maurício e piscou.

    — Não é sobre fome, Lúcia, é sobre consideração. Sua família não tem nenhuma. O jantar já está frio. — O gracejo de Lúcia só serviu para aumentar a irritação de Porfírio. Levantou-se da cadeira com tanta força que quase a derrubou e foi olhar pela janela. — Um bando de folgados, é o que são.

    — Não ouse falar da minha família! — Lúcia se ofendeu. — Você não chega nem aos pés deles.

    – Como é? Não chego nem aos pés de uma família que, se não fosse pelo meu dinheiro, estaria com o nome jogado na lama? – Porfírio retrucou com soberba.

    A partir daí, a discussão escalou. Lúcia não aceitava que alguém cujo sobrenome fosse ‘Matossanto’ — um nome totalmente inexpressivo em sociedade — falasse uma palavra sequer sobre os ‘Albuquerque’. Levantou-se e avançou contra o marido.

    Nos anos 1930, não era algo muito comum que mulheres afrontassem seus maridos. O resultado foi que, em algum momento, Porfírio perdeu completamente a cabeça, puxou os cabelos da mulher, e a jogou no chão na frente da visita. Maurício não se conteve, segurou o braço do marido e, se a campainha não tivesse tocado no mesmo instante, poderia ter acontecido um desastre.

    A lembrança da mulher amada tentando defender-se e depois caindo ao chão não lhe saía da cabeça naquele momento. Enquanto Maurício dava um passo atrás do outro, um casal de idosos passou pelos cônjuges mais jovens diante dele e sorriu, provavelmente acreditando que se tratasse de dois amantes apaixonados. Mal sabiam eles que quem deveria estar ali, de braços dados com aquela mulher, era Maurício.

    Mesmo assim, não sabia por que os estava seguindo, talvez o álcool estivesse guiando suas pernas, não a razão. Não havia nenhum motivo para estar ali, naquela noite de domingo, anterior a sua partida para o trabalho. No entanto, a cada passo, sua revolta aumentava.

    Mas o que Maurício deveria fazer? Contar toda verdade ao marido traído e exigir dele a separação da esposa? Seria a melhor solução, mas duvidava que o homem fosse aquiescer. Primeiro porque o sobrenome de Lúcia era de extrema importância para que ele pudesse subir a escala social. Segundo porque Lúcia era também o seu grande amor.

    Além do mais, uma mulher desquitada não tinha o respeito da sociedade. Não importava o quanto o nome dos Albuquerque tenha sido salvo da sarjeta pelo dinheiro de Porfírio, pelo sacrifício de Lúcia. Talvez por isso mesmo não havia dúvida de que a família tomaria o lado do marido traído, renegando a parente adúltera e a banindo de seu seio. Eles tentariam proibi-la de usar o sobrenome ou mesmo mencionar sua ascendência.

    Não que ele deixaria que a reputação de Lúcia fosse manchada; assim que saísse o desquite, eles embarcariam em um navio uruguaio e o capitão os casaria em alto mar. Sua mulher continuaria sendo uma ‘Albuquerque’ – mesmo que recuperando o sobrenome de um primo pobre da família. No entanto, a família era extremamente importante para ela, a ponto de se sacrificar em um casamento sem sentimento para salvá-la.

    O casal trocou algumas palavras e resolveu cortar caminho por um beco entre dois edifícios. Não era o caminho de sua casa; caso eles estivessem se dirigindo a algum outro lugar, Maurício poderia perdê-los de vista.

    Apressou o passo, a pergunta sobre o que deveria fazer brincando de ciranda em sua mente. Durante os meses que estaria viajando, receberia as cartas de Lúcia e sofreria a dor de não estar a seu lado.

    Não conseguia mais pensar direito. Também não deveria mais beber, estava ébrio o suficiente, mas, ao dobrar a esquina para o beco onde havia entrado o casal, tirou a tampa da garrafa de uísque que trazia na mão e bebeu mais um grande gole.

    Como seria bom se Porfírio simplesmente morresse.

    O casal também havia apressado o passo, ao que parece, haviam percebido que estavam sendo seguidos. Maurício conseguiria alcançá-los facilmente pois Lúcia não podia andar muito rápido devido aos sapatos que estava usando. Ainda estavam a uma meia distância da saída do beco quando Porfírio falou para a mulher:

    — Vou ver o que ele quer e segurá-lo por aqui, Lúcia. Vá buscar ajuda e fique em um lugar seguro.

    — Por favor, tenha cuidado, Porfírio. — A mulher respondeu e andou o mais rápido que podia.

    Tentar despistar o perseguidor não fora uma boa ideia, Porfírio entendeu assim que percebeu o homem entrando no beco. Não sabia ainda que o conhecia, jurava tratar-se de um ladrão bêbado em busca das joias de Lúcia. Maurício usava o chapéu quase a cobrir-lhe os olhos e não fazia a barba havia três dias, uma face que Porfírio nunca tinha visto. Também estava trajando o casaco de trabalho, jamais usado durante encontros sociais. Mas não importava quem fosse aquele homem, o esposo jamais deixaria alguém tocar na mulher.

    Virou-se para o homem. Maurício parou.

    — O que você quer? Dinheiro? Aqui está, essa quantia deve dar para você beber até cair, agora deixe-nos em paz — disse abrindo a carteira e tirando algumas notas que jogou em direção ao rapaz.

    — Eu quero que você liberte minha Lúcia de uma vez por todas – Maurício respondeu ainda com a cabeça quase toda coberta pelo chapéu.

    — Sua o quê? — Porfírio achou que não havia ouvido direito.

    — Deixe minha Lúcia em paz, ela não o ama. Ela ama a mim. Dê-lhe o desquite.

    — Quem é você? Identifique-se.

    Maurício levantou a cabeça finalmente e Porfírio o reconheceu.

    — Seu moleque atrevido, não sei do que está falando, mas há de pagar por isso caso não dê meia-volta e nunca mais apareça na nossa frente.

    O álcool ferveu no sangue de Maurício, mas ainda teve frieza para colocar a garrafa a salvo em cima de um parapeito antes de aplicar um murro na cara de Porfirio. Este deu dois passos atrás com o impacto inesperado e resolveu devolver a agressão.

    Os dois se agarraram, mas o jovem Maurício, trabalhador do mar, levava grande vantagem: em menos de um minuto, havia dominado Porfírio no chão e o esmurrava com as duas mãos, o sangue do homem já a escorrer pelo nariz quebrado.

    — Pare com isso, Maurício, deixe Porfírio em paz.

    Nenhum dos dois homens vira que Lúcia havia se escondido atrás do muro no final do beco, mas, ao ver a briga, voltou para apartá-la. Puxou Maurício pelo casaco sem sucesso e acabou caindo no chão quando esse a empurrou sem perceber. O amante não parou de esmurrar o marido.

    — Pare com isso, já disse!

    Lúcia começou a temer pela vida do esposo. Adorava a aventura com o rapaz, mas ao contrário do que este pensava, o seu coração não lhe pertencia.

    — Eu menti para você, Maurício. Não quero me separar de Porfírio. Fiquei com você somente para me vingar da traição dele, mas amo meu marido. Entre nós dois foi só uma aventura.

    O braço de Maurício parou no ar. Ele se levantou lentamente enquanto o abaixava. Lúcia deu alguns passos para trás temerosa, sabia que nunca deveria ter iludido o amante como fizera.

    Mais uma vez, Maurício perguntou-se o que deveria fazer. Pegou a garrafa de uísque do parapeito, tirou a tampa, e deu outro grande gole enquanto encarava a pífia amante. Então tampou a garrafa novamente, virou-se, e começou a caminhar lentamente na direção contrária ao casal.

    Depois de alguns passos, colocou a mão na cabeça e sentiu falta do chapéu. Precisava de seu chapéu. Olhou para trás para procurá-lo, devia ter caído durante a briga. O torpor o fez cambalear. A garrafa escorregou de sua mão e o fundo quebrou ao bater no chão.

    Porfírio já estava de pé, Lúcia havia tirado sua echarpe e tentava limpar o sangue de seu rosto. Era uma cena linda de se ver: estava claro como água que a amante realmente amava ao esposo, não a ele.

    Quando percebeu que Maurício os estava observando, a esposa começou a empurrar o marido gentilmente pelas costas em direção à saída do beco.

    O jovem viu os dois se afastando como em um sonho. Podia jurar que havia uma névoa os envolvendo, mesmo não havendo névoa alguma àquela época do ano. Recolheu a garrafa quebrada do chão, correu cambaleante na direção do casal, puxou o braço de Lúcia, e passou-lhe a garrafa quebrada pelo pescoço, cortando-lhe a jugular.


    Apontamentos da Autora

    Esse texto passou por revisão coletiva durante uma aula ao vivo no curso de Formação de Revisores. Porém creditei somente às revisoras que me enviaram seus comentários escritos para que eu pudesse trabalhá-lo.

    O engraçado de se ter várias análises sobre um mesmo texto é que os comentários são diferentes e às vezes antagônicos. Isso acaba forçando a pensar o que faz mais sentido para você enquanto autor, em vez de aceitar uma mudança porque o outro sabe mais que você, ou seja, por insegurança.

    Se tiver curiosidade em saber como foi a minha experiência de ter um trabalho esmiuçado em aulas por várias pessoas, é só ler esse post.


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  • Lua Cheia Minguante

    ✦ Autoria: may cavalcante · Revisão: Prof. Marcelo Spalding.

    – Tá vendo aquelas ilhazinha ali? Quando eu nasci, não era esse monte não, era uma roda só.

    O dedo indicador quase centenário de D. Clementina apontava trêmulo para um conjunto de filetes de terra em meia lua que mal se avistava de cima das falésias. Todos os finais de tarde, quando chegava da escola, Clenilson empurrava a cadeira até o pequeno mirante da comunidade do Morro Velho, onde moravam. Se fosse pelo gosto de D. Clementina, passaria o dia inteirinho lá, assistindo seu berço sumir no meio das águas.

    – Como é que chama hoje, meu fio?

    – Atol dos Nudibrânquios, trisa Clementina.

    O trineto de dez anos fazia questão da companhia de sua ancestral mais velha. Ele não se importava de responder as mesmas perguntas e escutar as mesmas histórias.

    – Hihihi… Que nome engraçado! E o que diabo é isso?

    – São as lesmas do mar, trisa. – D. Clementina sempre ria do nome da ilha, e Cleonilson se divertia com a risada banguela dela.

     – Ah, bom, é as lesma do mar. Mas porque deram um nome tão feio prum bicho tão bonito? Só pro nome da ilha ficar bisonho também. No meu tempo, a gente chamava de Ilha da Lua Cheia. Tinha um lago que parecia uma bacia no meio. Quando a lua de verdade tava cheia e a luz batia na água, ela ficava uma roda branquinha e toda brilhante. Mais bonita que a do céu. O lago tinha água doce, sabe fio? A gente bebia a água do lago, mas aí quando o mar começou a invadir, a água salgada começou a entrar e o lago não prestou mais.

    O menino já conhecia a história de cor, e sua imaginação viajava de volta à época que sua trisa, bisa, e avó brincavam nas praias de areia branca e fina.

    – Não levava muito tempo pra ir do mar pra lagoa ou da lagoa pro mar, mas rodar a ilha toda demorava mais um tiquinho. A casinha que eu nasci era do lado de cá, que que o mar engoliu primeiro… – A velha deu um suspiro, seus olhos encheram-se d’água. – Era pequena, mas cabia eu, meu pai, minha mãe, e meus seis irmãos. Como fui a última a casar… Porque eu era a mais nova, viu? Não era porque eu tava ficando no caritó, não! Do quê era que eu tava falando mesmo?

    – Que a senhora foi a última a casar.

    – Ah, sim, pois é. Casei e fiquei morando com meu marido e a mãinha na casinha que nasci. Tive sua mãe lá também.

    – Minha bisa, a senhora quer dizer – o menino retificou a idosa.

    – Sua o quê?

    – Minha bisa, trisa Clementina. Foi a bisa Clemência que nasceu lá. Minha mãe nasceu aqui. A Clécia, filha da Clemilda, neta da Clemência.

    – É mesmo. Às vezes eu me confundo toda. – A mulher soltou sua risada. – Falar nisso, cadê a Clemência? Ela precisa me ajudar a fazer a janta. O pai dela chega daqui a pouco.

    – Bisa Clemência está em um lugar melhor – disse Cleonilson, esforçando-se para manter séria a expressão que tentava encobrir o sorriso mal contido.

    – Ô, menina danada! Sempre se escapulindo na hora de fazer as coisa. Que lugar é esse? Eu vou lá buscar, vou trazer ela pelos cabelos.

    A gargalhada do menino explodiu. Depois de alguns minutos longos o suficiente para fazer a barriga doer e uma lágrima cair, ele conseguiu articular:

    – Ai, ai. Deixe a bisa quieta, trisa, me conte mais da Lua Cheia.

    A mulher se mexeu na cadeira, ainda amuada pela ausência da filha na hora da obrigação, mas a lembrança dos ventos que uivavam à noite e do ritmo aconchegante da maré na ilha desmanchariam qualquer amuamento.

    – Tá bom, meu fio, eu conto. Quando a maré tava baixa, aparecia as pedra e as lesma. Tinha muita lesma, dava pra encher balde. A água era tão clarinha que nem parecia que tava lá. Soprava brisa nas palma dia e noite. Não sei pra onde foi tanto coqueiro, tinha na ilha inteira. Quando a maré subia, a espuma inda ficava longe um tantão assim dos coqueiro quando eu era cocota.

    Ela abriu os braços para mostrar a distância.

    – Tinha um coqueiro que cresceu de lado. Eu me deitava nele pra esperar pain chegar da pesca. Depois que casei, esperava meu marido, sentada com os pé enterrado na areia. A gente não usava chinela, que a areia era macia e gostosa de pisar. Não era que nem essa sujeira daqui, não.

    Fez uma careta de nojo enquanto se ajeitava novamente na cadeira.

    – Quando a fia da Clemência tinha mais ou menos o seu tamanho, maior um pouco, é acho que ela tava perto de virar moça; a gente foi morar do outro lado do lago. Foi não, tô mentindo. Peraí, tô não. A gente já tava na casa nova quando sua mãe se engraçou do galeguin dos zói azul que apareceu por lá pra fazer não sei o quê.

    – Essa foi a vovó Clemilda. Minha mãe é a Clécia, lembra? – O menino consertou sem tentar segurar o riso. Toda tarde era a mesma coisa, D. Clementina não acertava combinar o nome com a estória de nenhuma descendente, embora se lembrasse de todas.

    – Hihihi… Errei de novo, né? Mas é que essas menina são tão parecida.

    – Vovó Clemilda é quase preta e minha mãe é quase branca, trisa, e ainda tem olho azul igual o vovô Hans – disse ele rindo mais.

    Os dois gargalharam por um bom tempo até que soprou a brisa que faz arrepiar os pelos do corpo. Sinal que estava chegando a hora de voltar pra casa. Cleonilson esfregou os braços com as palmas das mãos opostas.

    – Tá com fri, menino? Você não podia morar na ilha, não. De noite, a gente batia os dente do lado de fora. Mas que a casinha nova também era boa, isso era. Acho que não fiquei nela nem vinte ano.

    Nessa hora, uma moto com problemas de escapamento passou dando papocos. Mesmo não tendo a audição de antigamente, a velha senhora teve que parar de falar por um momento.

    – Povo mal-educado. Por isso que eu queria ir me embora pra minha ilha. Não tem essas zuada. É só marejar de onda e canto do vento. Até o cheiro é diferente, cheiro de sal, de vida.

    – Ninguém pode morar mais lá, tá condenado.

    – Condenado é o maldito que obrigou a gente a sair! O pedaço que eu morava tá lá, ó. O mar não alcança que é alto. É capaz da minha casa nova ainda tá de pé, parece até que tô vendo ela.

    – Tem mais condição de ninguém viver lá não, trisa. O engenheiro que ficou no lugar do vovô explicou. Não dá pra levar comida e água pra beber só se tiver chuva. Até os cientistas que estudam a natureza precisam de permissão pra ir na ilha hoje em dia.

    Cleonilson se posicionou atrás da cadeira, e começou a movimentar Clementina para levá-la de volta à casa.

    – Menino, me prometa uma coisa.

    – Diga, trisa.

    – Ôxe! Você tem que prometer primeiro.

    – Como é que eu vou prometer uma coisa que eu nem sei o que é?

    – Meu fio, eu não tenho muito tempo de vida mais não. Você vai gastar o tempo que resta dessa veia em teimosia sua? Prometa logo.

    – Tá bom, eu prometo. – Cleonilson sabia que não conseguiria vencer a trisavó, então aceitou sorrindo.

    – Pois você acabou de me prometer que vai me enterrar na Lua Cheia quando eu morrer. Do lado do meu veio que ficou bem pertinho da casa nova. Mesmo se um dia a água engolir tudo, vai dar tempo d’eu morrer primeiro. Posso até não morar lá tando viva, mas tando morta, não há de ter problema.

    Por mais que fosse mórbido o tema, o menino não conseguiu deixar de dar uma gargalhada da perspicácia da mulher.

    – Ó, ria não, que é sério. Se você não cumprir sua promessa, venho puxar o dedão do seu pé toda noite. Palavra de veia da ilha.


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  • Aquela Mulher

    ✦ Autoria: Katherine Mansfield · Tradução: may cavalcante. · Revisão: Suyá Lóssio.

    Sentada com uma perna de cada lado do peitoril da janela baixa, cheirando o bálsamo-de-cheiro – ou era o chá? – metade de Kezia estava no jardim e metade no aposento.

    – Tu incluíste os Harcouts?

    – Sim, o Sr. Phil e a Sra. Charlie.

    – E os Fields?

    – A Sra. e as Srtas. Field.

    – E a Rose Conway?

    – Sim, e aquela moça de Melbourne que está com ela.

    – A velha Sra. Grady?

    – Tu achas… necessário?

    – Minha querida, ela gosta tanto de uma boa fofoca.

    – Ah, mas aquele hábito que ela tem de molhar tudo no seu chá! Bolo de chocolate gelado e as pontas do boá de pena mergulhados no chá…

    – Impressionante como aquela fita tem durado, Harrie. Impressionante.

    Aquela era a voz da tia Beryl. Ela, tia Harrie e mamãe estavam sentadas à mesa redonda com grandes xícaras rasas na frente delas. À luz crespucular, em suas blusas bufantes de musselina com manga em asa, elas eram três passáros na beira de um lago de nenúfares. Para além delas, o aposento sombrio se fundia às sombras; as molduras douradas dos quadros suspensos no ar; a maçaneta de cristal lapidado cintilando – uma canção, uma borboleta branca com asas abertas, agarrava-se ao piano de ébano.

    Os tons melosos, melancólicos de tia Harrie:

    – Está esmaecido, na verdade, se você prestar atenção nele. Não acredito, de forma alguma, que possa aguentar ser engomado mais uma vez.

     – Se eu fosse rica – disse tia BBeryl – com dinheiro de fato para gastar, não para poupar…

    Mamãe: – Que tal – Que tal convidar aquela mulher: Gibbs?

    – Linda!

    – Como podes sugerir tal coisa!

    – Ora, por que não? Ela não precisa vir. Mas deve ser tão horrível não ser convidada para nada!

    – Mas, céus, de quem é a culpa? Quem haveria de convidá-la?

    – Ela não tem ninguém a não ser a si mesma para culpar.

    – Ela simplesmente afrontou a todos.

    – E deve ser tão particularmente terrível para o Sr. Gibbs.

    – Mas Harrie querida, ele está morto.

    – Claro, Linda. É exatamente isso. Ele deve se sentir tão impotente, olhando lá de cima.

    Kezia ouviu sua mãe dizer:

    – Nunca pensei sobre isso. Sim, isso talvez seja… bastante enlouquecedor!

    A vozinha suave de tia Berryl jorrou e transbordou:

    – Não é algo para rir, Linda. Há certas coisas às quais se deve impor um limite ao deboche.


    Anotações à Margem

    Por may cavalcante

    Katherine Mansfield (1888-1923) foi uma escritora neozelandesa que nasceu e cresceu no número 5 da Tinakori Road, uma rua em Wellington, Nova Zelândia, que se tornou histórica por causa da autora e pela arquitetura colonial. Seu primeiro conto foi publicado na revista da escola, quando tinha apenas nove anos, acompanhado de um elogio do editor: “promessa de grande mérito”.

    Há muitos contos de Katherine já traduzidos para o português, conforme lista aquele site usurpador (do nome do nosso rio e de almas). Embora os originais em inglês estejam em domínio público, as traduções não estão: os transdutores detém os direitos autorais sobre seus trabalhos.

    Aquela Mulher parece um texto muito simples, mas o subtexto que carrega é profundo. Achei engraçada essa construção: “Mamãe: – Que tal – Que tal convidar…” porque em aula de Escrita Criativa recente sobre diálogos, foi bem enfatizado que só se assinala dessa maneira quem está falando em roteiros. Mas isso deve ter acontecido porque That Woman é classificado como uma história inacabada, então é possível que fosse para ser um roteiro, sim.

    Também “dei uma esticada na baladeira” na tradução da última fala para deixá-la do jeito que eu queria, conservando uma certa literariedade sem alterar o sentido. Teve quem chiasse, assinalando que ficou pesado, mas eu gostei.

    O conto That Woman está em domínio público, mas não é fácil encontrá-lo. Ele está disponível nessa amostra da Edinburgh University Press (em maio/2026).


    Para queixas, palpites ou o simples prazer da réplica, mande-nos uma correspondência aqui. As e-missivas recebidas poderão, oportunamente, ser respondidas na nossa página Correio da Lambisgoia.

  • Florina

    (Conto Maravilhoso)

    ✦ Autoria: Emília Freitas · Preparação: may cavalcante.

    Havia uma crença popular que ninguém devia entrar na caverna da montanha, chamavam-na a caverna maldita; todos os pastores a avistavam de longe, mas não ousavam aproximar-se dela.

    Entretando Florina, a formosa pastora que há três anos conduzia as vacas à pastagem, sentia um violento desejo de saber o que havia naquela caverna, e de dia a dia ela experimentava mais curiosidade. Mal completou seus dezesseis anos, disse ela consigo: – sou moça, não devo mais ter medo.

    Um dia, pois, ela deixou o rebanho sob a guarda de seu jovem irmão, dizendo que iria colher morangas; mas ela concebera outro pensamento, e internada no bosque, dirigiu-se para a terrível caverna.

    Penetrou na caverna sem hesitar, tanto sua curiosidade era viva, mas, apenas deu alguns passos, veio-lhe o desejo de recuar.

    Infelizmente, não era cousa possível; a caverna fechava-se à medida que ela avançava, e o que era mais maravilhoso, ela enxergava suficientemente para caminhar. Por toda a parte um clarão, cujos raios nenhum foco projetava, e Florina lobrigava ao longe outra abertura na montanha, que parecia convidá-la a animar-se e prosseguir seu caminho.

    Ela acelerou o passo, porque temia que, a caverna fechando-se por diante, fosse sepultada viva na montanha.

    Nada foi: Florina, depois de ter caminhado longo tempo, muito tempo, sem cessar de ver muito longe de si a abertura, que ela acreditava nunca atingir, chegou ao fim, e ficou bem surpreendida de descobrir um país maravilhoso, e mil cousas das quais não tinha ideia alguma.

    O céu era róseo, a erva e as folhas azuis, os pássaros tinham quatro asas, as menores borboletas eram grandes como folhas de sicômoro, a água jorrava aqui e acolá em molhos de esguichos cintilantes, que exalavam os mais suaves perfumes; os gamos, de pelo branco, de cornos dourados, de olhos azuis, que vinham beber a essas fontes embalsamadas, dançavam ao redor da donzela, e falavam-lhe um idioma desconhecido, mas tão doce e tão sonoro, que ela sentia indizível prazer em ouvi-lo, tão expressivo que, em poucos momentos, ela adivinhava quase; é verdade que essas lindas criaturas ocupavam-se sobretudo de sua beleza.

    Florina marchava de surpresa em surpresa; todo esse país encantado parecia-lhe estar em festa. Ela ouviu por trás de muitas árvores, inteiramente novas para si, concerto de vozes humanas; para esse lado dirigiu-se ela.

    Na quebrada de uma avenida juncada de ouro, ela avistou, através de magníficas sombras, um palácio de prodigiosa beleza. À medida que ela se aproximava, ouvia maior ruído; eram cantos e risos, cuja expressão singular infundia-lhe mais terror que alegria.

    No entanto ela não via aparecer pessoa alguma.

    Ela não ousou apresentar-se à grande entrada, e fazendo um desvio, acercou-se de uma janela baixa, d’onde saia um odor da mais apetitosa cozinha do mundo.

    Ela bate timidamente à porta. Um grande cozinheiro apareceu, que lhe fala com voz áspera:

    – Que procuras aqui?

    – Procuro meu caminho, senhor, e rogo-vos dizer-me por onde poderei voltar a minha casa.

    – Ah! sois a bela, que atravessastes a montanha! Sede bem-vinda, Florina! Não esperávamos senão a vós!

    Dizendo essas palavras com riso sardônico, o grande cozinheiro afiava sua faca n’um amolador de aço, e arremessava sobre a donzela olhares fulgentes.

    – Entrai – disse-lhe ele. – Mademoiselle, entre. Vosso caminho é por aqui.

    Florina, depois de ter percorrido um longo corredor, achou-se no meio de uma vasta cozinha, onde vinte marmitões e outros tantos criados estavam ocupados nos aprestos de um suntuoso festim.

    Por toda parte coziam-se as viandas, trabalhavam-se as aves. Ao mesmo tempo, trinta marmitões ocupados; mas a pastora surpreendeu-se vendo a maior parte das marmitas aberta e vazia junto ao fogão, e mau grado, seu espanto, não pôde conter-se, e disse a meia voz:

    – Senhor cozinheiro, por que esta marmita não está cheia como as outras?

    – Porque ela esperava a sua caça, Florina, e esta acaba de chegar neste momento. Éreis vós a quem nós esperávamos para pôr dentro, e quando estiverdes pronta, começará o festim.

    Florina desatou a chorar, e pediu ao cozinheiro que lhe poupasse a vida.

    – Só há um meio de salvação para vós – retorquiu o terrível chefe – eis aqui uma chave de ouro; procurai em todo o palácio a porta que ela poder abrir. Se achardes, nós não vos cozeremos, e escolheremos outra pessoa para o festim de Sua Majestade.

    – Em nome do rei, senhor cozinheiro, não ponhais pessoa alguma em meu lugar neste momento! Não há aqui viandas em abundância para a refeição de Sua Majestade!

    – Florina, pensai em vós, só, e não pretendais introduzir entre nós novos costumes. Quanto a mim, só tenho a dizer-vos: vede a fechadura que possa convir à esta chave, e estais salva. Depois podereis implorar uma graça, uma só, à nossa sagrada Majestade.

    Imediatamente Florinda pôs mãos à obra: ela experimentou a chave em mais de trezentas portas.

    Para esse trabalho, ela só tinha o resto do dia; o sol baixava, e ainda ela não tinha encontrado fechadura para a chave de ouro. A pobre moça tremia, como varas verdes; na sua precipitação, ela não tinha a precisa serenidade para fazer convenientemente suas experiências. O chefe e quatro ajudantes armados de suas grandes facas, seguiam-na passo a passo, e alternadamente diziam à tímida donzela:

    – Apressai-vos, Florina. O sol baixa – o sol baixa – apressai-vos, Florina!

    Ela percorreu os grandes e pequenos aposentos; subira ao madeiramento e descera, passava de corredor a corredor; não deixou uma só fechadura sem a experimentar, mas a chave era sempre grande ou pequena, ou o palhetão mal torneado e feitio de outro jeito que não ajustava. Por fim o cozinheiro disse à pastora:

    – Florina, eis o derradeiro momento, o sol vai atingir a montanha.

    A pastora achava-se então de frente a um grande espelho pendurado à parede, e, como para ali lançasse os olhos, viu sua mãe e seu pai sentados em uma cabana. Eles choravam, e sem dúvida pranteavam sua filha que perderam, sem, portanto, pensar que ela achava-se em posição tão cruel.

    A esta vista, a desgraçada fora de si gritou:

    – Meu pobres pais, ainda posso tornar a vê-los antes de morrer!

    Falando assim, ela precipitou-se tão vivamente para seu pai e sua mãe para abraçá-los, que a chave de ouro saltando, bateu no espelho e fê-lo em mil pedaços. Ora, por trás do espelho achava-se uma porta oculta; esta porta tinha uma fechadura, esta fechadura convinha perfeitamente à chave de ouro. Logo que a pobrezinha a experimentou, a porta abriu-se.

    – Não esperávamos senão a vós, bela Florina – disse-lhe o jovem e lindo monarca, apresentando-lhe, em magnífica sala, sua corte, a mais brilhante do mundo inteiro.

    A pastora, olhando a si mesma, viu-se transformada. Entretanto em si não havia mudança senão no vestuário que resplandecia de diamantes e rubis. Florina nascera tão bela que não necessitava de outra cousa para transformá-la em completa princesa.

    Entretando, no meio do esplendor soberano, o jovem monarca estava pensativo e melancólico; parecia exposto a uma secreta inquietação, e, conduzindo a estrangeira à mesa do festim, disse-lhe com voz comovida:

    – Formosa Florina, tendes uma graça a pedir-me. Qual é?

    – Ah, senhor! – respondeu ela – Não hesitarei em pedir-vos que me restituais a meus pais, mas, vossa felicidade e vossa glória tocam-me mais do que tudo, eis porque peço-vos a graça de toda a infeliz que como eu, possa cair nas mãos do vosso cozinheiro…

    Apenas pronunciara estas palavras, que uma música triunfal ouviu-se na sala do festim – todos os semblantes expandiram-se – o Príncipe soberano parecia radiante e a mais viva alegria substituira em seu rosto os sonhos de pesar.

    – Oh, minha libertadora! – exclamou ele beijando a mão de Florina – Sede bendita pela súplica que me dirigiste! É a mim que fazeis a graça que implorais para os outros! Feliz pedido que esperava ter a quinhentos anos, e livra-me de um espantoso encantamento! Sois vós a primeira, Florina, que tendo a pedir-me um favor, um só, esquecestes-vos por outrem. De ora avante, poderei passar uma vida inocente! Minha mesa real não será mais conspurcada por detestáveis manjares, ao quais foi-me permitido, é verdade, nunca tocar, mas cujo único aspecto horrisava-me. Em reconhecimento de tão grande benefício, quero, formosa Florina, fazer por vós alguma cousa de mais.

    – Ah, senhor! Peço-vos que me restituais a meu pai e à minha mãe!

    – Não posso!

    – Então chamai-os para junto de sua filha?

    – Também não é possível!

    – Ah! Então o que é que podereis fazer por mim?

    – Enviarei o pássaro vermelho, meu fiel mensageiro, dizer a vossos pais que sois minha esposa, e que não há sobre a terra uma rainha mais amada e mais amável do que vós.

    .     .     .     .     .

    Florina reinou – foi esposa feliz, mãe feliz, mas seus olhos arrasados em lágrima voltavam-se muitas vezes para a montanha, por trás da qual ficara metade de sua felicidade.

    Não há, mesmo no país das fadas, felicidade completa neste mundo.


    Anotações à Margem

    Por may cavalcante

    Emília Freitas (1855-1908) foi uma escritora cearense de rosto e obras desconhecidos, mesmo tendo sido a pioneira do seu gênero literário no Brasil. Só para imaginar o tamanho do apagamento, A Rainha do Ignoto, reconhecidamente a primeira narrativa longa brasileira de literatura fantástica e ficção científica, não consta no site de domínio público do governo federal ao lado de “Machados e Alencares”. No recém-criado MEC Livros, está disponível uma obra sobre A Rainha do Ignoto, mas não o texto original de Emília Freitas (em abril de 2026). Vá entender!

    O conto Florina foi publicado no Jornal Libertador de Fortaleza (CE), em 1883, e “assinado” apenas com três pontos ao final. Sua autoria foi atribuída academicamente com base na proximidade de estilo e temática com A Rainha do Ignoto e pelo fato de Emília ter sido uma colaboradora usual do jornal em que foi publicado. Florina é considerada, na verdade, a “primeira versão” d’A Rainha do Ignoto (1899).

    Na preparação do texto, interferi o mínimo possível, alterando grafias de acordo com a nova ortografia, e algumas pouquíssimas pontuações. Doeu não cortar vários “ela” que se repetiam irritantemente, mas não era imprescindível para o entendimento do texto.

    Dois outros pontos que poderiam, a priori, parecer erros, mas que resolvi deixar foram:

    1. O cozinheiro usa tanto “tu” como “vós” para se referir à Florina, como na passagem “– Entrai – disse-lhe ele. – Mademoiselle, entre.” Acho que foi intencional. O  recurso é consistente nesse personagem e talvez tenha sido uma forma que a autora encontrou para mostrar um menor nível educacional dele.
    2. Há mistura de tempos verbais em algumas passagens. Até ensaiei alterar a pontuação em uma delas, mas haveria leve mudança de sentido, então o leitor que se vire nesse trecho. Para mim ainda ficou meio confuso, mas dá para entender com algum esforço.

    Quando comecei a ler Florina, gostei porque acho divertido contos de fadas antigos – por mais bobinhos que sejam – e me envolvi na jornada da heroína. Terminei cativada pela sagacidade da autora. Sem meias palavras: o príncipe é um filho da p***! A moça o liberta de uma maldição abominável, e como pagamento, ele a aprisiona, opa, digo, faz dela sua esposa sem consultá-la, quando o que ela realmente queria era ficar com os seus pais. Ah, mas a autora diz que Florina foi feliz! Sim, com olhos arrasados de lágrimas. Se alguém, mesmo naquele tempo, acreditou que pudesse existir esse tipo de felicidade pela metade, é porque quer muito, do fundo do coração, acreditar em contos de fada.

    Mas essa é só minha opinião. Por favor, sinta-se à vontade para ter a sua. Agora vou partir para A Rainha do Ignoto que encontrei a digitalização da primeira edição e estou empolgadíssima para explorá-la.

    O conto Florina está em Domínio Público e pode ser encontrado no site da Fundação Biblioteca Nacional, nas edições 171 e 172 do jornal Libertador, do ano de 1883.


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  • O Teste de QI

    ✦ Autoria: may cavalcante · Revisão: Prof. Marcelo Spalding.

    Não preciso entrevistar a menina. Estou com o resultado do teste aqui, então já dá para saber se ela tem futuro ou não.

    Olha, nós – e todas as outras escolas, na verdade – fazemos o teste de QI para saber qual criança vale a pena aceitar e qual não é boa o suficiente. É um teste padronizado, desenvolvido por especialistas e empregado com sucesso no mundo todo.

    Ele garante que a escola não receba crianças fracassadas porque nós trabalhamos com o olho no mercado, no que os pais estão dispostos a pagar, não nas crianças. Aqui só entram os bons. Então os alunos têm que ter QI acima de 100 – que é considerado uma inteligência normal – e privilegiamos os que têm QI acima de 140.

    O resultado da sua menina foi 90, o que já consideramos como retardamento mental.

    Sua filha é burra.  

    Ela não tem muita chance de sucesso na vida, sabe? Praticamente nenhuma mesmo com esse QI. Não seria uma boa aluna para a nossa escola e dificilmente vai conseguir um bom emprego no futuro. É o que o teste diz. Há milhares de estudos de caso comprovando a eficiência do teste, relacionando o QI com o sucesso, já que ele determina a capacidade e o potencial da criança.

    Claro que existem exceções, mas não podemos trabalhar com exceções. Precisamos minimizar nossos riscos. Nós nos baseamos exclusivamente em padrões que determinam o que é bom e o que é ruim.

    Não, senhor, não somos bitolados! O senhor é que precisa abrir sua mente, furar essa bolha que está aí na sua cabeça e aceitar a realidade que o teste mostra.

    Já que insiste tanto, vou quebrar seu galho. Proponho que o tempo que sua filha passe brincando, assistindo televisão, conversando com as amiguinhas, ela use para estudar para ver se chega pelo menos aos 100. Já podemos deixar marcado para ela vir refazer o teste.

    Não é só até o teste, não. Como ela não é naturalmente inteligente, vai precisar fazer esse esforço extra durante a vida inteira. Sua filha é, digamos assim, “problemática”. É a realidade, comprovada pelo teste. Ela não é como os outros alunos que atingiram a pontuação necessária na primeira tentativa.

    Sim, sim, isso é muito comum. A maioria das crianças nunca atinge um QI de 100. Na verdade, uma pontuação de 90 já é considerada uma inteligência mediana, mas nós damos uma margem para garantir.

    Isso, os pais botam as crianças para estudar toda hora para tentar aumentar a pontuação.

    Nem sempre. Muitos não conseguem nem assim.

    É, brincar pode ser importante. Socialização e descanso também… Mas o que é mais importante para sua filha, ser uma criança feliz agora ou um adulto bem-sucedido no futuro? Pela nossa experiência, no caso de uma criança como a sua, uma coisa exclui a outra.

    Claro que não é garantia. Na vida não há garantias. Um QI acima de 100 é essencial, mas não garante desenvolvimento acadêmico nem futuro. Independentemente do que o aluno faça, há outras variáveis que atrapalham ou ajudam, mas ignoramos essas. Com um QI de 100 ou menos, as chances de sucesso são basicamente inexistentes, o aluno não terá nenhum resultado expressivo. Se tiver qualquer resultado.

    Já lhe disse, senhor, não estamos nem aí para quem não se encaixa no padrão. Não precisamos reconsiderar nada. O padrão dita o que é normal e tem que ser seguido. Todo pai de família honesto sabe disso.

    Olha, os outros pais não estão nem aí para o que o senhor pensa e, honestamente, nós também não. Se o senhor gosta ou não, é problema seu, não muda nada. Não é o teste que não é bom o suficiente, é sua filha, ela é burra!

    Ah, pouco importa que a maioria dos alunos tenha desempenho mediano na vida; os 10% melhores que chegam ao topo dão nome e lucro à escola. São eles que importam. O resto é o resto e ninguém vai apostar na sua filha como uma exceção à regra: não é só porque ela é sua filha que vai ser a criança de QI baixo que alcançou o sucesso.

    Sim, o que falei é o que aconselhamos. Não necessariamente a menina vá perder a infância, só é ruim no começo, com o tempo fica mais fácil. Ela nem vai perceber que poderia estar brincando ao invés de estudando. Vai é esquecer o que é brincar. Estudar enquanto as crianças inteligentes brincam vai ser o normal para ela. Quem sabe ela até aprende a se divertir com o estudo, não é mesmo?

    O senhor precisa sair dessa sua bolha! O senhor tem uma mente muito fechada. Disse que tinha uma mente aberta, mas não tem, não. Por acaso está criando sua filha para si mesmo? Tudo bem, não tem problema se o senhor se contentar que ela fique só ali mesmo em família, com os amigos… mas se o senhor quiser que a menina seja uma pessoa no mundo, ela precisa alcançar 100 no teste de QI. Caso contrário, ninguém vai dar valor a ela.

    E alguma vez eu disse que só existe essa escola? Mas lhe garanto que toda escola que se preze usa o mesmo teste. Como sua filha tem essa deficiência intelectual, ela não vai entrar em nenhuma. Ninguém bom aceita exceção, ainda mais o primeiro filho. Se fosse pelo menos de família ilustre! Ou se tivesse um irmão ou dois irmãos excepcionais, com QI acima de 160, talvez a escola aceitasse porque os primeiros garantiam o dela. Sempre é mais fácil fazer o novo se passar por inteligente mesmo não sendo, depois que os primeiros triunfaram.

    Fora dessas condições, pelo que eu tenho visto na minha experiência, criança com QI baixo não vinga. Sei o que estou falando, quem me treinou foram as pessoas mais renomadas do país. São poucos esses mestres e sabem tudo. Eu também sei só de olhar para a primeira resposta do teste – já consigo dizer que o aluno não é bom. O senhor é pai de primeira viagem, não sabe.

    Conheço sim, escolas para crianças com desafios especiais. São muito caras, viu?! E não ensinam nada. O senhor é quem vai ter que ensinar tudo para a sua filha em casa. A diferença é que a menina vai usar uma farda e ganhar a aparência de uma criança inteligente.

    Honestamente, acho que, nesse caso, seria melhor o senhor fazer tudo por conta própria, sem escola nem nada. É de graça. Só é muito trabalho para pouco resultado. Muita frustração. Mas o risco é baixo, mesmo que o retorno seja menor ainda.

    E, no final, sua filha continua burra.


    Apontamentos da Autora

    Esse texto passou por duas leituras críticas e pela revisão do Prof. Marcelo Spalding, durante o curso de Formação de Revisores. Todo mundo apontou um problema com repetição de ideias e palavras. A Suyá Lóssio até disse que se irritou um pouco, e eu achei o máximo, porque o propósito era irritar mesmo. Apesar disso, resolvi fazer algumas mudanças a favor de um texto melhor, já que, de acordo com a observação do professor, “em um texto curto, nada pode sobrar”.

    A sugestão era cortar uns cinco ou seis parágrafos inteiros, incluindo os dois últimos, então ainda ficou sobrando um bocado. O resultado talvez não esteja seguindo o “segredo da literatura”, que seria brincar com o subtexto, pois parece que não deixei muito a ser descoberto pelo próprio leitor. Porém, essa foi uma escolha consciente devido à origem da ideia para o conto, logo estou satisfeita.


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  • Os Jardins do Prazer

    ✦ Autoria: Olive Schreiner · Tradução: may cavalcante. · Revisão: Suyá Lóssio

    Ela caminhou pelos canteiros, e o aroma doce e intenso das rosas encheu o ar, e ela colheu um punhado de flores em suas mãos. Nesse instante, o Dever, com suas feições brancas límpidas, veio e olhou para ela. Então ela parou de colher, mas foi embora entre as flores, sorrindo, e com suas mãos cheias.

    O Dever, com seu rosto branco inexpressivo, veio outra vez, e olhou para ela; mas ela, ela virou sua cabeça para o outro lado. Por fim, ela viu o rosto dele, deixou cair as mais lindas flores que havia acolhido, e saiu silenciosamente.

    Porém, novamente ele veio até ela. E ela soltou um gemido, abaixou a cabeça, e se virou para o portão. Mas ao sair, olhou para trás, para a luz do sol nas faces das flores, e chorou de angústia. Em seguida saiu, e o portão se fechou atrás dela para sempre; mas ainda em sua mão, ela abrigava os botões que havia colhido, e o aroma era muito doce no deserto solitário.

    Mas ele a seguiu. Uma vez mais ele parou diante dela com seu rosto inexpressivo, branco como a morte. Ela sabia o que ele tinha vindo buscar: ela desdobrou os dedos, e deixou cair as flores, as flores que tanto tinha amado, e afastou-se sem elas, com mãos que nada mais abraçavam. Ainda assim, ele olhava. Então, por fim, ela abriu seu seio e tirou dele uma pequena flor que havia escondido lá, e deitou-a sobre a areia. Ela não tinha nada mais para dar, e vagueou para longe, e a areia cinza fez redemoinhos à sua volta.


    Anotações à Margem

    Olive Schreiner (1855 – 1920) nasceu e morreu na África do Sul, embora tenha vivido vários anos na Europa. Era feminista, ativista e livre pensadora, mas sempre evitou, em seus trabalhos, o radicalismo político.

    O conto The Gardens of Pleasure, traduzido acima, foi primeiramente publicado em fevereiro de 1888 na revista Woman’s World, e depois incluído na coletânea de alegorias da autora intitulada Dreams, em 1890.

    Sou apaixonada por esse texto por que quando o leio, “Mexe qualquer coisa dentro, doida
    Já qualquer coisa, doida, dentro mexe”, copiando Caetano. Há pouco, quando estava editando para a publicação, não consegui segurar as lágrimas e precisei parar e aceitar o carinho consolador da minha cachorra.

    Observação: Obra original em domínio público.


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