O Teste de QI

✦ Autoria: may cavalcante · Revisão: Prof. Marcelo Spalding.

Não preciso entrevistar a menina. Estou com o resultado do teste aqui, então já dá para saber se ela tem futuro ou não.

Olha, nós – e todas as outras escolas, na verdade – fazemos o teste de QI para saber qual criança vale a pena aceitar e qual não é boa o suficiente. É um teste padronizado, desenvolvido por especialistas e empregado com sucesso no mundo todo.

Ele garante que a escola não receba crianças fracassadas porque nós trabalhamos com o olho no mercado, no que os pais estão dispostos a pagar, não nas crianças. Aqui só entram os bons. Então os alunos têm que ter QI acima de 100 – que é considerado uma inteligência normal – e privilegiamos os que têm QI acima de 140.

O resultado da sua menina foi 90, o que já consideramos como retardamento mental.

Sua filha é burra.  

Ela não tem muita chance de sucesso na vida, sabe? Praticamente nenhuma mesmo com esse QI. Não seria uma boa aluna para a nossa escola e dificilmente vai conseguir um bom emprego no futuro. É o que o teste diz. Há milhares de estudos de caso comprovando a eficiência do teste, relacionando o QI com o sucesso, já que ele determina a capacidade e o potencial da criança.

Claro que existem exceções, mas não podemos trabalhar com exceções. Precisamos minimizar nossos riscos. Nós nos baseamos exclusivamente em padrões que determinam o que é bom e o que é ruim.

Não, senhor, não somos bitolados! O senhor é que precisa abrir sua mente, furar essa bolha que está aí na sua cabeça e aceitar a realidade que o teste mostra.

Já que insiste tanto, vou quebrar seu galho. Proponho que o tempo que sua filha passe brincando, assistindo televisão, conversando com as amiguinhas, ela use para estudar para ver se chega pelo menos aos 100. Já podemos deixar marcado para ela vir refazer o teste.

Não é só até o teste, não. Como ela não é naturalmente inteligente, vai precisar fazer esse esforço extra durante a vida inteira. Sua filha é, digamos assim, “problemática”. É a realidade, comprovada pelo teste. Ela não é como os outros alunos que atingiram a pontuação necessária na primeira tentativa.

Sim, sim, isso é muito comum. A maioria das crianças nunca atinge um QI de 100. Na verdade, uma pontuação de 90 já é considerada uma inteligência mediana, mas nós damos uma margem para garantir.

Isso, os pais botam as crianças para estudar toda hora para tentar aumentar a pontuação.

Nem sempre. Muitos não conseguem nem assim.

É, brincar pode ser importante. Socialização e descanso também… Mas o que é mais importante para sua filha, ser uma criança feliz agora ou um adulto bem-sucedido no futuro? Pela nossa experiência, no caso de uma criança como a sua, uma coisa exclui a outra.

Claro que não é garantia. Na vida não há garantias. Um QI acima de 100 é essencial, mas não garante desenvolvimento acadêmico nem futuro. Independentemente do que o aluno faça, há outras variáveis que atrapalham ou ajudam, mas ignoramos essas. Com um QI de 100 ou menos, as chances de sucesso são basicamente inexistentes, o aluno não terá nenhum resultado expressivo. Se tiver qualquer resultado.

Já lhe disse, senhor, não estamos nem aí para quem não se encaixa no padrão. Não precisamos reconsiderar nada. O padrão dita o que é normal e tem que ser seguido. Todo pai de família honesto sabe disso.

Olha, os outros pais não estão nem aí para o que o senhor pensa e, honestamente, nós também não. Se o senhor gosta ou não, é problema seu, não muda nada. Não é o teste que não é bom o suficiente, é sua filha, ela é burra!

Ah, pouco importa que a maioria dos alunos tenha desempenho mediano na vida; os 10% melhores que chegam ao topo dão nome e lucro à escola. São eles que importam. O resto é o resto e ninguém vai apostar na sua filha como uma exceção à regra: não é só porque ela é sua filha que vai ser a criança de QI baixo que alcançou o sucesso.

Sim, o que falei é o que aconselhamos. Não necessariamente a menina vá perder a infância, só é ruim no começo, com o tempo fica mais fácil. Ela nem vai perceber que poderia estar brincando ao invés de estudando. Vai é esquecer o que é brincar. Estudar enquanto as crianças inteligentes brincam vai ser o normal para ela. Quem sabe ela até aprende a se divertir com o estudo, não é mesmo?

O senhor precisa sair dessa sua bolha! O senhor tem uma mente muito fechada. Disse que tinha uma mente aberta, mas não tem, não. Por acaso está criando sua filha para si mesmo? Tudo bem, não tem problema se o senhor se contentar que ela fique só ali mesmo em família, com os amigos… mas se o senhor quiser que a menina seja uma pessoa no mundo, ela precisa alcançar 100 no teste de QI. Caso contrário, ninguém vai dar valor a ela.

E alguma vez eu disse que só existe essa escola? Mas lhe garanto que toda escola que se preze usa o mesmo teste. Como sua filha tem essa deficiência intelectual, ela não vai entrar em nenhuma. Ninguém bom aceita exceção, ainda mais o primeiro filho. Se fosse pelo menos de família ilustre! Ou se tivesse um irmão ou dois irmãos excepcionais, com QI acima de 160, talvez a escola aceitasse porque os primeiros garantiam o dela. Sempre é mais fácil fazer o novo se passar por inteligente mesmo não sendo, depois que os primeiros triunfaram.

Fora dessas condições, pelo que eu tenho visto na minha experiência, criança com QI baixo não vinga. Sei o que estou falando, quem me treinou foram as pessoas mais renomadas do país. São poucos esses mestres e sabem tudo. Eu também sei só de olhar para a primeira resposta do teste – já consigo dizer que o aluno não é bom. O senhor é pai de primeira viagem, não sabe.

Conheço sim, escolas para crianças com desafios especiais. São muito caras, viu?! E não ensinam nada. O senhor é quem vai ter que ensinar tudo para a sua filha em casa. A diferença é que a menina vai usar uma farda e ganhar a aparência de uma criança inteligente.

Honestamente, acho que, nesse caso, seria melhor o senhor fazer tudo por conta própria, sem escola nem nada. É de graça. Só é muito trabalho para pouco resultado. Muita frustração. Mas o risco é baixo, mesmo que o retorno seja menor ainda.

E, no final, sua filha continua burra.


Apontamentos da Autora

Esse texto passou por duas leituras críticas e pela revisão do Prof. Marcelo Spalding, durante o curso de Formação de Revisores. Todo mundo apontou um problema com repetição de ideias e palavras. A Suyá Lóssio até disse que se irritou um pouco, e eu achei o máximo, porque o propósito era irritar mesmo. Apesar disso, resolvi fazer algumas mudanças a favor de um texto melhor, já que, de acordo com a observação do professor, “em um texto curto, nada pode sobrar”.

A sugestão era cortar uns cinco ou seis parágrafos inteiros, incluindo os dois últimos, então ainda ficou sobrando um bocado. O resultado talvez não esteja seguindo o “segredo da literatura”, que seria brincar com o subtexto, pois parece que não deixei muito a ser descoberto pelo próprio leitor. Porém, essa foi uma escolha consciente devido à origem da ideia para o conto, logo estou satisfeita.


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