✦ Autoria: Suyá Lóssio. · Revisão: may cavalcante.
A morte do meu avô me aproximou dele. Você pode estar pensando: “claro! É muito fácil se aproximar depois de morto, todo mundo vira santo.” Mas em vida já éramos muito próximos.
Um passeio que fizemos logo antes de ele ser internado — e meu mundo virar de cabeça pra baixo — foi quando me levou pra ver os novos equipamentos de exercícios que a prefeitura havia instalado no Parque Rio Branco, me mostrou todos os exercícios que fazia diariamente e os gatos que viviam no parque (disse que havia contado setenta e tantos gatos, se não me falha a memória). Pouco antes, também havia cortado sapoti pra mim. Nós discutimos nessa ocasião, pois a sua memória estava fraca e eu não tinha percebido, perdi a paciência, mesmo vendo que ele estava confundindo as contas.
Mas fizemos as pazes na sequência.
Hoje, depois de muitos altos e baixos de raiva por meu avô ter sofrido e morrido e da tristeza imensa por muitos anos, tenho percebido a sua presença nas pequenas coisas. Estamos até mais ligados do que quando ele estava vivo e eu estava morando em outra cidade. Hoje, nós nos abraçamos através dos sambas, jogamos juntos, vemos as estrelas, catamos acerola bem madurinha do pé, esperamos o sapoti amadurecer. Quando vejo um pé de Jambo florido, ele também aparece por lá.
Na devoção à nossa senhora também. O amor segue forte, mas tem um gosto doce de nuvem, de poesia, de viver todas as possibilidades num momento só. Tal hora o vento muda e eu sei que ele está por aqui. Fico pensando se todos têm uma vivência parecida com seus mortos ou se a morte marca cada um de um jeito muito único. Sigo sentindo a segurança do colo, o que me permitiu ser criança e confiar que nada de mal vai acontecer. Às vezes, me emociono com a minha mãe e a minha avó, as três sentindo uma saudade imensa desse homem que nos deu tanto amparo. Só às vezes, porque na maior parte do tempo já não choro mais.
Considerações da revisora
Essa crônica foi originalmente publicada no Instagram da autora Suyá Lóssio. Gosto muito de suas crônicas, mas essa me tocou de uma maneira especial, então pedi para publicar, e ela topou.
Como a formatação de um texto para as redes sociais é bem peculiar, foi preciso uma preparaçãozinha: quebrei-o em parágrafos, fiz a verificação textual e atribuí um título. Ela concordou com tudo… bem, quase tudo, pois não viu o título antes da publicação. Qualquer coisa, fazemos uma modificação e editamos essas considerações.
Fica aqui meu agradecimento à Su, como a chamamos afetuosamente, por permitir divulgar seus sentimentos. Também um convite para quem desejar fazer o mesmo: caso queira publicar algo n’A Lambisgoia, é só dar uma olhadinha nessa página.
Para queixas, palpites ou o simples prazer da réplica, mande-nos uma correspondência aqui. As e-missivas recebidas poderão, oportunamente, ser respondidas na nossa página Correio da Lambisgoia.