Aquela Mulher

✦ Autoria: Katherine Mansfield · Tradução: may cavalcante. · Revisão: Suyá Lóssio.

Sentada com uma perna de cada lado do peitoril da janela baixa, cheirando o bálsamo-de-cheiro – ou era o chá? – metade de Kezia estava no jardim e metade no aposento.

– Tu incluíste os Harcouts?

– Sim, o Sr. Phil e a Sra. Charlie.

– E os Fields?

– A Sra. e as Srtas. Field.

– E a Rose Conway?

– Sim, e aquela moça de Melbourne que está com ela.

– A velha Sra. Grady?

– Tu achas… necessário?

– Minha querida, ela gosta tanto de uma boa fofoca.

– Ah, mas aquele hábito que ela tem de molhar tudo no seu chá! Bolo de chocolate gelado e as pontas do boá de pena mergulhados no chá…

– Impressionante como aquela fita tem durado, Harrie. Impressionante.

Aquela era a voz da tia Beryl. Ela, tia Harrie e mamãe estavam sentadas à mesa redonda com grandes xícaras rasas na frente delas. À luz crespucular, em suas blusas bufantes de musselina com manga em asa, elas eram três passáros na beira de um lago de nenúfares. Para além delas, o aposento sombrio se fundia às sombras; as molduras douradas dos quadros suspensos no ar; a maçaneta de cristal lapidado cintilando – uma canção, uma borboleta branca com asas abertas, agarrava-se ao piano de ébano.

Os tons melosos, melancólicos de tia Harrie:

– Está esmaecido, na verdade, se você prestar atenção nele. Não acredito, de forma alguma, que possa aguentar ser engomado mais uma vez.

 – Se eu fosse rica – disse tia BBeryl – com dinheiro de fato para gastar, não para poupar…

Mamãe: – Que tal – Que tal convidar aquela mulher: Gibbs?

– Linda!

– Como podes sugerir tal coisa!

– Ora, por que não? Ela não precisa vir. Mas deve ser tão horrível não ser convidada para nada!

– Mas, céus, de quem é a culpa? Quem haveria de convidá-la?

– Ela não tem ninguém a não ser a si mesma para culpar.

– Ela simplesmente afrontou a todos.

– E deve ser tão particularmente terrível para o Sr. Gibbs.

– Mas Harrie querida, ele está morto.

– Claro, Linda. É exatamente isso. Ele deve se sentir tão impotente, olhando lá de cima.

Kezia ouviu sua mãe dizer:

– Nunca pensei sobre isso. Sim, isso talvez seja… bastante enlouquecedor!

A vozinha suave de tia Berryl jorrou e transbordou:

– Não é algo para rir, Linda. Há certas coisas às quais se deve impor um limite ao deboche.


Anotações à Margem

Por may cavalcante

Katherine Mansfield (1888-1923) foi uma escritora neozelandesa que nasceu e cresceu no número 5 da Tinakori Road, uma rua em Wellington, Nova Zelândia, que se tornou histórica por causa da autora e pela arquitetura colonial. Seu primeiro conto foi publicado na revista da escola, quando tinha apenas nove anos, acompanhado de um elogio do editor: “promessa de grande mérito”.

Há muitos contos de Katherine já traduzidos para o português, conforme lista aquele site usurpador (do nome do nosso rio e de almas). Embora os originais em inglês estejam em domínio público, as traduções não estão: os transdutores detém os direitos autorais sobre seus trabalhos.

Aquela Mulher parece um texto muito simples, mas o subtexto que carrega é profundo. Achei engraçada essa construção: “Mamãe: – Que tal – Que tal convidar…” porque em aula de Escrita Criativa recente sobre diálogos, foi bem enfatizado que só se assinala dessa maneira quem está falando em roteiros. Mas isso deve ter acontecido porque That Woman é classificado como uma história inacabada, então é possível que fosse para ser um roteiro, sim.

Também “dei uma esticada na baladeira” na tradução da última fala para deixá-la do jeito que eu queria, conservando uma certa literariedade sem alterar o sentido. Teve quem chiasse, assinalando que ficou pesado, mas eu gostei.

O conto That Woman está em domínio público, mas não é fácil encontrá-lo. Ele está disponível nessa amostra da Edinburgh University Press (em maio/2026).


Para queixas, palpites ou o simples prazer da réplica, mande-nos uma correspondência aqui. As e-missivas recebidas poderão, oportunamente, ser respondidas na nossa página Correio da Lambisgoia.