Uma experiência crítica diferente

✦ Autoria: may cavalcante · Revisão: Rossana Araripe Lindote.

Que se danem as controvérsias: receber crítica é pior que dor de dente! Você escreve um texto com o suor do seu cérebro e o reescreve com as lágrimas da alma. Depois passa por todo o trabalho de parto que é a revisão para, finalmente, dar à luz a perfeição. Como ousa alguém dizer um ‘ai’ que seja de uma criação da sua genialidade?

Acredito que a maioria dos escritores acaba se apaixonando por suas obras, mas para aqueles abençoados com a síndrome do impostor – muitos entre nós – um simples comentário é praticamente uma sentença transitada em julgado. A dúvida, ou melhor, a certeza da própria incompetência assume o controle. Não interessa se o crítico falou algo negativo, positivo, construtivo, ou destrutivo, o que o escritor ouve é: “Ahá, aqui está a prova: você é uma fraude! Admita.” O terror que uma crítica desperta chega a paralisar alguns por encarnações sem fim.

Para que isso não aconteça, é imperativo desapegar-se da obra, assim, quando sair do coma, você perceberá que a crítica é sobre o escrito e não sobre quem escreveu.  O besouro da insegurança pode até continuar lá, esperando a oportunidade de morder de novo, mas seu segredo ficará a salvo, por enquanto.

A síndrome do impostor, talvez gerada e certamente fortalecida por inúmeras experiências traumatizantes ao longo da vida, sempre me fez evitar com todas as forças qualquer tipo de exposição, fosse pessoal, fosse de algo que fiz. Porém, quem escreve quer ser lido, e como ainda não descobri uma maneira de fazer uma pessoa ler sem ela saber que está lendo, o jeito foi encarar o medo.

Uma oportunidade providencial apareceu no módulo prático do meu curso de revisão. Ele é online, mas ao vivo com câmeras ligadas. A professora abriu espaço para quem quisesse ter um texto próprio revisado pelos colegas em aula. Escolhi um que havia feito algum tempo atrás, do qual lembrava a história, mas não exatamente como a tinha desenvolvido. Também não li nada antes de mandar para não cair na tentação de mudá-lo ou de desistir.

No entanto, minha coragem foi só até o ponto de mandar o conto, não de me identificar como autora para os colegas. A professora, delicadíssima e de uma consideração enorme, combinou com a turma que eles dariam um retorno como se ela fosse a escritora, mesmo deixando claro que não era, de tal forma que eles deveriam falar como se estivessem falando com a cliente. Isso deveria evitar qualquer comentário mais pesado ou outros tipos de constrangimento.

Chegou a hora. Começo da aula. Ao vivo. Câmeras ligadas. Nervosismo. A primeira colega que se pronunciou disse não ter feito a revisão. Tristeza. Talvez fosse melhor que ninguém tivesse lido mesmo. Mas que raios tinha dado na minha cabeça para achar que aquela seria uma boa ideia?

Eu poderia simplesmente ter saído da aula naquele momento, não a assistir jamais e fingir que nada daquilo aconteceu. Mas decidi ficar. Não iria intervir, não iria chorar. Tinha me preparado para levar qualquer pancada. Tinha toneladas de chocolate – entre barras, bolo, biscoito e o cappuccino – ao alcance da mão. Tinha uma curiosidade maior do que o medo, mesmo arriscando a possibilidade de ficar semanas me sentindo estúpida por ter me colocado em tal situação por vontade própria.

A segunda colega comentou que o conto mexeu com ela como se estivesse dentro da cena. Queria isso dizer que ela não perdeu seu tempo lendo minha história? Meu olho umedeceu e desliguei minha câmera. Pessoalmente, o pior sentimento gerado de alguma avaliação hoje é a sensação de que a pessoa desperdiçou o tempo dela com algo vindo de mim. O tempo é irrecuperável e ninguém sabe o quanto lhes resta.

Enquanto estava comentando as observações da aluna, a internet da professora caiu. Deu vontade de rir, mas de nervoso, pois eu ainda esperava pelas espetadas, pauladas e tentativas de assassinato que estavam por vir.

Depois de alguns minutos, a aula foi restabelecida e a próxima colega destacou o elemento surpresa como ponto forte, além de sugerir ajustes para tornar o texto mais ágil. A revisora seguinte gostou do ritmo e do clímax, mesmo identificando uma certa prolixidade.

Eu não estava acreditando! Sim, havia críticas, sugestões de pontos a serem melhorados, mas não críticas de partir o coração. Aquelas leitoras, mesmo tendo analisado com um olhar profissional, pareceram ter genuinamente apreciado o conto.

Mas como nem tudo pode ser flores, eis que chega a pessoa que não entendeu muito bem a missão. Apareceu um comentário que soou um tanto quanto um julgamento. Alguma coisa na forma como foi dito, não sobre o que foi dito, posto que, inclusive, foi útil: “O casal se esconderia de uma pessoa que está perseguindo num beco? Eu não sei, porque beco não tem saída. Eu fiquei com isso na cabeça.” E eu descobri que em Santa Catarina as pessoas chamam beco com saída de ‘Servidão’ – achei tão bonitinho. Porém, na maior parte do Brasil, beco tem saída, e os becos sem saída são chamados – pasmem! – ‘Beco sem saída’.

Essa foi a única hora em que minha autoconfiança foi atingida e meu instinto de defesa disparado. Eu não interviria, mas fiquei torcendo para alguém me defender, embora nem eu nem o conto estivéssemos sendo verdadeiramente atacados. Houve respostas e réplicas com relação a essa questão e apesar do apelido que recebeu, ‘o beco da discórdia’, a discussão foi cem por cento civilizada e interessante. A maior polêmica acabou sendo outra coisa: uma frase invertida, se referindo a informações dissolvidas nas orações anteriores. Ela causou confusão na interpretação, mas no final, a simples inclusão da palavra ‘disso’ resolveu todo o problema. Durante esses momentos, minha mente transformou as argumentações em um jogo ao qual fiquei assistindo e torcendo para o ‘meu time’ ganhar.

Claro que foram descobertos muitos outros problemas e possíveis melhorias, afinal, eram várias alunas avaliando um texto. Uma palavrinha que não é muito sensível, uma instituição jurídica que não existia na época da narrativa, o título que talvez fosse um pouco genérico. E no meio disso tudo, um comentário que fez a lágrima cair, escrito no chat porque a colega estava sem microfone:

“…sou professora de Língua Portuguesa… a minha análise do texto ‘Traições’ está bem próxima da análise literária, creio que esse meu trabalho reforça o que as colegas disseram que ele foi muito bem redigido… creio que o autor do conto redigiu um final que se aproxima do estilo de alguns autores literários, como o Machado de Assis, por exemplo.”

A lágrima foi de gratidão, claro.

A experiência toda foi como um daqueles Navios Piratas dos parques de diversões: uma hora estava em cima, outra estava embaixo, e na próxima estava em cima de novo. Foi uma oscilação até divertida, não daquelas que fazem revirar o estômago e mandam você direto para o chão quando sai do brinquedo. Exposições em grupo só me traziam lembranças pavorosas e veio essa para contrabalançar um pouco essa equação psicológica. De imediato, tive um ato de coragem: me revelei como a autora no fim da aula para poder agradecer às contribuições e a incrível delicadeza da professora.

Ainda continuo achando que receber crítica é pior que dor de dente, mas agora sei que não precisa ser sempre assim.

P.S.: Se você quiser conhecer o conto, é esse aqui.


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