Categoria: Ensaio

  • Isto não é um perfil curto

    ✦ Autoria: may cavalcante. · Revisão: Suyá Lóssio.

    Thereza Maria de Jesus. Mulher sem nome de família. Nem família. Carregava apenas o sobrenome religioso que substituiu o do antigo dono. Em algum momento entre 1821 e 1910, tempo em que caminhou entre os viventes, tornou-se uma ex-escravizada. No entanto, não é possível afirmar se deixou de ser vista, ou de se ver, como escrava. Mesmo sendo a primeira genitora encontrada nos anais da história de uma certa família secular, sobre ela, as preciosas memórias da abençoada família não se ocuparam em registrar muito mais que “mulher de cor morena, força antiga e alma franciscana… que servia no casarão como caseira”. Também não é sabido se seu pagamento era constituído apenas da roupa, da comida e do teto sobre a cabeça, como era comum na época, mas é certo que Thereza serviu no fogão, no tanque e na cama. Em 1860, aos 39 anos, deu à luz uma criança “natural”, como os rebentos sem filiação paterna eram lavrados nos assentos de batismo paroquiais. Uma menina gerada pela lascívia do patrão. Um padre. As preciosas memórias especulam sobre “um amor proibido e desigual”. Tal amor proibido é possível, remotamente, mas também é possível que a desigualdade tenha engendrado uma sujeição silenciosa acorrentada na submissão estrutural. O fato é que à Thereza só foi permitido conviver com sua filha, que recebeu o sobrenome de solteira de uma das avós maternas, não o do “tio padre”, por nove anos. Depois disso, teve que entregar o fruto do seu ventre às irmãs do patrão que moravam na capital. Isso é tudo que se sabe sobre essa mulher.


    Apontamentos da Autora

    Por ser tão comum, a história de Thereza até parece genérica, representativa de várias outras mulheres como ela, mas Thereza foi uma pessoa de carne de osso que viveu, sofreu, trabalhou, amou, morreu. Ela é uma das minhas oito tataravós.

    Conheci-a através do livro do memorial familiar, resultado de uma extensa pesquisa genealógica, documental e de entrevistas orais. Embora com algumas ressalvas quanto à obra final, sou muito grata ao trabalho do autor pela oportunidade de saber mais sobre meus antepassados.

    Ainda assim, vendo quão pouco se resgatou sobre Thereza, percebo com mais força a relevância de uma Carolina, outra Maria de Jesus. A loteria genética não me sorteou com o tom da pele da minha tataravó, porém comungamos a sorte do sexo feminino que ainda hoje — mais de dois séculos depois do nascimento de Thereza e um século do de Carolina — sofre tentativas de apagamento e servidão.